É natural, típico e legítimo de qualquer qualidade de gente contar a história de seus heróis. Em toda parte, uma hora ou outra, surgem os grandes benfeitores, libertadores ou defensores que deixam um legado aos seus patrícios: as façanhas e o nome de seu povo, seu país, gravados na lembrança de aliados e inimigos. O herói nessa escala é a sua nação, na condição de representá-la frente a uma adversidade, ou a um adversário. Esta mesma nação eleva-o à semidivindade, se há êxito, ou o condena ao escárnio se não há: o traidor da pátria é algo ainda pior que o inimigo.
Ultimamente, não temos mais guerras nacionais como as da Antiguidade, da Idade Média, ou mesmo as dos primeiros anos do século XX. A verdade é que esses enfrentamentos, depois da WWII, perderam muito de sua graça: os líderes são uns doidos megalomaníacos como Hitler, Fidel, Slobodan Milosevic, Saddam Hussein, Bush Pai e Bush Filho, Chavez (que agora anda na dele, mas curte uma de Simon Bolívar que dá gosto...), e o infame Kim Jong-il. E pergunte hoje a algum conterrâneo desses senhores se os tais são considerados heróis? Infelizmente, o Romantismo acabou, e começamos a ver a guerra, e os senhores da guerra, como o que de fato são: horrores.
Mesmo assim, somos tentados, somos movidos pelo amor às contendas, sobretudo àquelas em que se destaque o caráter nacional. Então, onde mais se pode derrubar a ânsia pelas cruzadas, pelos feitos hercúleos, homéricos, alexandrinos, arthurianos ou guaraníticos? No esporte. E, com alguma ênfase, no esporte mais popular do mundo. Dentro de alguns dias começa uma nova cruzada.
Não falo pelos outros, porque não sei mais do que imagino que seja o amor pelo futebol em outros países. Também não falo por todos os brasileiros. Mas, até onde sei, uma boa parte de nosso povo está pronta para entregar a alma aos seus combatentes em troca da glória de sobrepujar outras trinta e uma nações pela sexta vez. Irão endeusá-los mais uma vez, coroá-los de louros, carregá-los nos braços (se bem que já se usam os caminhões dos bombeiros pra isso), aplaudi-los e amá-los, idolatrá-los, salve, salve.

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