domingo, 23 de maio de 2010

"Dedade"




Que beleza é ver uma criança aprendendo a falar. Vi hoje, no ônibus, um casal bem jovem e seu bebê, em idade de formar as primeiras palavrinhas de mais de duas sílabas. Ele dizia “Dedade!”, ao que a mãezinha traduzia, fazendo-o repetir, “Verdade, meu amor? É verdade?”, e o bebê, mais por reflexo que por ciência, repetia, “Dedade!”. Achei uma coisa magnífica.

Nós sabemos o que é verdade. Acostumamo-nos a ela. Passamos a vida toda afirmando que ela deve ser dita, e que a ética da vida nos manda dizê-la sempre, e sob juramento, dizê-la toda, somente, e nada além. É relativa, dizem uns; pode mudar conforme a circunstância dizem outros; outros ainda, que é passível de interpretação.

Qual é a diferença entre a verdade e a inverdade? Verdade é, ou aceitamos o que o seja, por oposição, por negatividade: é verdade tudo aquilo que não for inverdade. Logo, a menos que eu seja louco, e crie para mim um universo de significados para todas as partes da verdade em que estou inserido, não posso contradizê-la. Ainda que eu não aprecie, tenho de aceitá-la. O que não quer dizer que eu não possa mudá-la. Manipular a verdade é o que chamamos “argumentação”. Ou qualquer coisa do gênero, se nisso estiverem participando outros indivíduos além de mim – e considerando que não sou esquizofrênico.

A verdade só existe enquanto entidade se for compartilhada, porque sua existência se dá na comunicação. Mesmo que esteja somente no plano mental daqueles que estão amarrados a essa verdade, é ela quem determina, mas também é determinada, pelos indivíduos que a corroboram e disseminam. E também a alteram, sem, contudo, destruí-la ou anulá-la.

É até engraçado pensar assim. Somos ferrenhamente agarrados ao que aceitamos como verdade para sermos o que somos, achando que é isso o que nos faz únicos, e é justamente a verdade que nos nivela, e faz de nós partes indistintas de um todo.

De qualquer forma, durante toda a vida, não fazemos muito mais do que aquilo que o bebê fazia hoje no ônibus: repetimos o que nos passam como sendo verdade. E não nos damos conta de que acreditamos, defendemos e propagamos essa verdade, porque é nela que estamos costurados. Sem essa verdade, não existe isso que entendemos como “eu”, “self”, “espírito”, “personalidade”, “consciência”, “individualidade”, “caráter”. O mundo nos provoca dizendo “É verdade, meu amor? É verdade?”, e a gente, babando e batendo palminhas, repete papagaialmente, “Dedade”.





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