sábado, 12 de junho de 2010

O mundo real


Dizem que as pessoas que escolhem a vida monástica, da mesma forma que dizem dos que se refugiam na loucura, ou na poesia, ou se tornam indivíduos ensimesmados, essas pessoas fogem ao mundo real. Mas o que é o mundo real? Se pensarmos que os problemas dos quais tais pessoas fogem decorrem dessa confusão em que escolhemos existir, nosso julgamento se abrandaria.

As crises econômicas só existem porque existe a economia. Os conflitos entre os estados só existem porque existem os estados; e os religiosos porque há religiões. Os problemas mercadológicos, porque existe o mercado. A falta de posses porque existe a propriedade. Tudo isso só persiste porque, à primeira vista, são coisas à parte de nós. Esses seres, como a economia, o estado, a religião, o mercado, a propriedade, têm em nós coletivamente e em nosso modo de existir a sua causa: dependem da sociedade humana para existir, muito embora ajam à nossa revelia. Escapar ao seu domínio, seu olhar onipresente e opressor é quase impossível. Por isso que largar tudo e assumir uma vida como monge, louco, poeta ou ermitão parece uma saída, uma alternativa covarde.

Mas e se?

E se todos abolissem esse modo de existir? Abolissem o estado? Abolissem a cultura da posse? Abolissem o indivíduo? Abolissem o culto do eu, do positivo, do ponderável? Em suma, se as pessoas buscassem transcender? O mundo real viraria de pernas pro ar? Possivelmente. Seríamos mais pobres? Sem dúvida. Mas seríamos infelizes?

Não por acaso, o budismo prega que o recolhimento é um ato de compaixão. Quem vive no mundo, se nunca vivenciou uma experiência de fuga, sabe ou imagina a vida monástica uma bênção, do mesmo modo que um peregrino no deserto sabe ou imagina o quanto um copo de água gelada é uma bênção, sem ter jamais provado nada além de água morna ou quente. O mesmo vale para os poetas, e outros gêneros de artistas, que se desviam da manada para fazerem o que bem entendem – e é por isso que há tantos de nós encantados e invejosos de seu jeito de levar a vida, e tantos deles deslumbrados com nossa idolatria. E também vale para os eremitas, que dedicam seu tempo e sua energia unicamente para si, sem as dificuldades do convívio, e das mazelas que nascem dele: propriedade, economia, estado, religião... Mas, de uma maneira muito especial, os loucos convivem com a inadequação a essa realidade – e não é difícil imaginar por que razão a sociedade é tão cruel a ponto de excluir os inadequados, geralmente privando-os do convívio dos que não veem nada de errado no mundo.

Infelizmente, não somos feitos para a transcendência – ao menos, não inteiramente. O refúgio é um pouco de covardia, sim. Isso quando não é uma doença. Abandonar o mundo é não lutar para mudá-lo, ao passo que também é não lutar para mudar a si, considerando que estamos insatisfeitos com o mundo como ele é. Mas como saber se seremos ou não felizes nos afastando do mundo se não experimentarmos esse afastamento? Por isso, pode ser saudável tentar um refúgio parcial: não sendo monge, dedicar algum momento do dia para a meditação; não sendo eremita, ficar alguns minutos na própria companhia; não sendo poeta, procurar as metáforas e os ritmos ocultos nas coisas, não só nas escritas; e, não sendo loucos, contestar a realidade aos poucos, pelas beiradas, porque nem todas as evidências provam que o mundo seja exatamente do jeito que eles (sim eles) querem que a gente acredite.



Sujeito indeterminado

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Escritor inconformado, músico desajustado, sujeito indeterminado.

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